Aposto que você não sabia

Checagem de estudos

Desmentindo os números que te contaram sobre as bets

Checagem de estudos sobre apostas · Outubro de 2026

Você provavelmente ouviu que as bets estão endividando as famílias, tirando dinheiro do comércio e custando bilhões à saúde pública. Essas afirmações vieram de estudos que viraram manchete. Quando se olha de perto, os números não se sustentam do jeito que foram divulgados: alguns nem estão nos estudos, outros contam como perda dinheiro que não foi perdido, trazem para o Brasil números calculados em outro país ou tratam como gasto novo uma mudança na forma de registrar pagamentos. E boa parte do que esses estudos chamam de "bets" é, na verdade, o mercado ilegal, que funciona fora das regras de proteção ao apostador e da fiscalização do governo.

Clique numa manchete para ver o que os estudos realmente mostram.

“Bets fizeram o comércio deixar de vender R$ 143 bilhões”Estudo da CNC · abril de 2026

O que os dados mostram: O número não está no relatório, e o comércio bateu recorde de vendas no mesmo período.

A Confederação Nacional do Comércio usou uma pesquisa de entrevistas feita por ela mesma e comparou o Brasil antes e depois de janeiro de 2023. Tudo o que mudou nas dívidas das famílias nesse período foi atribuído às bets. O estudo recomendou restringir a publicidade do setor.

“O comércio deixou de vender R$ 143 bilhões por causa das bets”

O que está no estudo

  • O número não está no relatório. Ele aparece numa fala do economista-chefe da CNC, na nota oficial de divulgação: "nos últimos dois anos, o comércio deixou de faturar 143 bilhões de reais por conta desse fenômeno".
  • O relatório não calcula nenhum valor em reais perdido pelo comércio, e a CNC não mostrou de onde saiu a conta.

Por que não se sustenta

  • O comércio cresceu em 2023, 2024 e 2025 e bateu recorde em novembro de 2025, segundo o IBGE. Para afirmar que deixou de faturar R$ 143 bilhões, seria necessário demonstrar quanto teria vendido sem as apostas. A CNC não apresenta essa conta.
  • Em dezembro de 2025, a própria CNC anunciou que o Natal seria o melhor para o comércio desde 2014.
  • A CNC não detalhou como chegou aos R$ 143 bilhões. Como ordem de grandeza, as perdas líquidas dos apostadores em 2024 e 2025 somam cerca de R$ 70 bilhões, por métodos diferentes em cada ano. As medidas não são diretamente comparáveis.
  • O número também não distingue bets autorizadas de sites ilegais, nem o período anterior às regras de 2025 do período regulado. Mesmo que houvesse alguma perda, o estudo não permitiria saber de que mercado ela viria.

Confira a fonte: nota oficial da CNC (portaldocomercio.org.br, 28/04/2026); IBGE, Pesquisa Mensal de Comércio (13/02/2026); projeção de Natal da CNC (O Povo, 03/12/2025); Ministério da Fazenda e Banco Central, Estudo Especial nº 119.

“As famílias gastam mais de R$ 30 bilhões por mês com apostas”

O que está no estudo

  • O estudo usa uma série de "gastos com apostas" que passa de R$ 30 bilhões por mês em 2026, e trata esse valor como o dinheiro que as famílias tiram do orçamento.
  • O relatório não informa de onde vêm os valores e, num trecho, chama o mesmo número de anual.

Por que não se sustenta

  • Quando alguém aposta, a maior parte do dinheiro volta como prêmio. O que realmente sai do bolso é a diferença entre o que foi apostado e o que voltou.
  • Em 2025, segundo dados do Ministério da Fazenda, as empresas autorizadas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos e destinaram R$ 183,7 bilhões a prêmios e bônus sacáveis. A perda dos apostadores foi de R$ 36,9 bilhões no ano, cerca de R$ 3 bilhões por mês. Os períodos e as bases não são idênticos, mas a diferença de grandeza é clara: o número da CNC é de oito a dez vezes maior.
  • Um exemplo: quem troca R$ 100 por fichas num parque, joga, ganha R$ 80 em fichas e troca de volta gastou R$ 20. Contar R$ 100 como gasto, sem descontar os R$ 80 recebidos de volta, multiplica por cinco a perda real. É o risco de tratar valores movimentados como dinheiro efetivamente perdido.
  • A série também não separa as empresas autorizadas dos sites ilegais. Os R$ 30 bilhões misturam os dois mercados, e a CNC trata o total como se fosse do setor regulado.
  • Os dados oficiais mostram outro tamanho. Um estudo da LCA Consultoria Econômica, com dados do Banco Central, da SPA/MF e do IBGE, calculou que a perda com apostas no mercado regulado em 2025 equivaleu a 0,46% do consumo das famílias, menos do que o gasto com streaming. O pagamento de juros equivaleu a 8,6%, quase 19 vezes mais. O gasto médio por apostador foi de R$ 122 por mês, cerca de 3,3% da renda média do trabalho.

Confira a fonte: relatório da CNC, introdução e seção 5.4; dados do Ministério da Fazenda para 2025 (Gazeta do Povo, ago/2026); LCA Consultoria Econômica, Endividamento e Inadimplência das Famílias no Brasil, abril de 2026.

“Está provado que as bets aumentaram a inadimplência das famílias”

O que está no estudo

  • O relatório afirma ter encontrado "impacto causal significativo" das apostas sobre a inadimplência. A nota oficial diz que o estudo "estabelece pela primeira vez uma relação de causalidade".
  • Para chegar a isso, a CNC comparou o país antes e depois de janeiro de 2023.

Por que não se sustenta

  • Para saber se uma coisa causa outra, é preciso comparar quem foi exposto com quem não foi. Os estudos que medem causalidade comparam, por exemplo, estados que liberaram as apostas com estados que não liberaram. A CNC olhou o Brasil inteiro antes e depois de uma data e atribuiu às bets tudo o que mudou.
  • No mesmo período, os juros básicos chegaram a 15% e os juros do rotativo chegaram a 451,5% ao ano em agosto de 2025 (Banco Central). Pouco antes da data escolhida, em outubro de 2022, o governo liberou o consignado do Auxílio Brasil, com cerca de R$ 5 bilhões emprestados só naquele mês a famílias de baixa renda, descontados do benefício ao longo de 2023. Nada disso entrou na conta.
  • A data escolhida não marca nada no setor. As bets existem desde 2018, e as regras começaram a valer em 2025. Em janeiro de 2023, não aconteceu nada.
  • O que os dados mostram é que a inadimplência mudou no período analisado. O método usado não demonstra que as apostas foram a causa.
  • Os dados também não separam as bets autorizadas dos sites ilegais nem o período anterior às regras de 2025 do período regulado. Dos 39 meses que o estudo chama de "pós-Bets", 24 são de antes das regras de 2025. O estudo não mostra se o mercado regulado teve qualquer efeito diferente do período anterior.
  • Os dados apontam outros fatores com peso relevante. Endividamento é um problema com muitas causas, e nenhum fator isolado o explica. Segundo o estudo da LCA, o aumento da inadimplência se concentrou nas dívidas com bancos e financeiras, principalmente no rotativo do cartão, que tinha 64,5% de inadimplência e juros de 438% ao ano no fim de 2025. A melhora do emprego e da renda no período não se traduziu em queda da inadimplência, o que é compatível com o peso dos juros altos e das dívidas acumuladas. E, no mercado regulado, era proibido apostar com cartão de crédito.

Confira a fonte: relatório da CNC, seções 2 e 9; Copom, decisão de 18/06/2025; juros do rotativo a 451,5% ao ano (Agência Brasil, 29/09/2025); dados do Banco Central sobre o consignado do Auxílio Brasil (Diário do Comércio, 28/11/2022); LCA Consultoria Econômica, abril de 2026.

“Com as bets, o endividamento chegou a 80,4% das famílias”

O que está no estudo

  • O percentual vem da pesquisa da CNC e foi destacado na divulgação do estudo sobre bets.

Por que não se sustenta

  • O próprio estudo testou se as bets aumentaram o número de famílias endividadas e o de famílias com contas atrasadas. Nos dois casos, os resultados não foram estatisticamente significativos. Ou seja, o estudo não conseguiu demonstrar que as bets provocaram aumento desses indicadores.
  • O gráfico do próprio relatório mostra que o percentual de endividadas subiu de cerca de 68% em maio de 2021 para 79% no fim de 2022, antes da data que a CNC marca como início das bets. Depois disso, ficou entre 76% e 80%. O texto do relatório fala em "crescimento pronunciado a partir de janeiro de 2023", o que o próprio gráfico não mostra.
  • Os dados também não separam as bets autorizadas dos sites ilegais nem o período anterior às regras de 2025 do período regulado. Dos 39 meses que o estudo chama de "pós-Bets", 24 são de antes das regras de 2025.

Confira a fonte: relatório da CNC, seção 5.1 (gráfico "Total de Famílias Endividadas", p. 4) e seção 6.1.

“É preciso restringir a propaganda das bets para proteger as famílias”

O que está no estudo

  • É a recomendação final do relatório.

Por que não se sustenta

  • O estudo chama de "pós-Bets" o período de janeiro de 2023 a março de 2026. Desses 39 meses, 24 são de antes das regras, quando nenhuma empresa tinha autorização federal e as regras de publicidade do mercado regulado ainda não eram cobradas.
  • A partir de 2025, a publicidade das empresas autorizadas passou a seguir normas, como a proibição de anúncios para menores e de promessa de ganho fácil. O estudo não verifica se essas regras mudaram alguma coisa.
  • Na prática, o estudo usa predominantemente dados anteriores à regulação para recomendar novas restrições, sem avaliar separadamente os resultados das regras que entraram em vigor em 2025.
  • O estudo também não separa bets autorizadas de sites ilegais. Restringir a propaganda das empresas autorizadas não alcança os sites ilegais, que já anunciam fora da lei, e o estudo não mostra que essa medida reduziria qualquer problema.

Confira a fonte: relatório da CNC, seção 9; Portaria SPA/MF nº 1.231/2024.

“9 em cada 10 apostadores perdem dinheiro”Estudo da Stone/Insper · agosto de 2026

O que os dados mostram: O estudo conta como perda até o dinheiro que continua na conta do apostador, e três quartos do que ele observa vão para fora do mercado regulado.

Pesquisadores da Stone, empresa de pagamentos e crédito, e do Insper usaram dados dos clientes da própria Stone. A divulgação apresentou o trabalho como um estudo que "acompanhou a vida financeira de quem começou a apostar". O estudo usa métodos estatísticos sofisticados e é um documento de trabalho, sem publicação em revista científica.

O que o estudo realmente observa

Antes de olhar os números, vale entender o que o estudo de fato enxerga. Quatro limites de partida comprometem todos os resultados.

  • Não observa apostas. O estudo não vê nenhuma aposta. Ele considera "apostador" quem fez um Pix para algum nome de uma lista de 1.260 destinatários montada pelos próprios autores.
  • Não separa bets legais de sites ilegais. Só 87 desses destinatários são empresas autorizadas. Os outros 1.173 são sites ilegais, intermediários de pagamento ou nomes incluídos porque recebem Pix com padrão parecido com o de apostas: valor baixo, redondo, frequente e à noite. Os autores admitem que não conseguem distinguir sites ilegais de intermediários, e que esses intermediários misturam dinheiro de apostas com grandes volumes de outros pagamentos. Só um quarto do dinheiro observado vai para bets autorizadas, e o estudo não tem nenhum resultado calculado só para elas. Na prática, o estudo fala principalmente do mercado ilegal.
  • Não observa perdas. O estudo só vê o dinheiro que sai do banco e o que volta. Não vê o saldo que fica na conta do apostador dentro da plataforma, nem os prêmios ganhos e não sacados. Tudo o que não voltou para o banco é contado como perda.
  • Observa clientes de uma única empresa. São clientes da Stone, voltada a pagamentos de pequenos negócios, que correspondem a 1% a 3% dos apostadores do país e têm perfil diferente do apostador brasileiro. Os dados não são públicos, e ninguém de fora consegue refazer as contas.

Confira a fonte: Firpo e pesquisadores da Stone, Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil (set/2026), documento de trabalho não publicado, p. 11 (seção 3.1 e nota de rodapé 4), p. 12 (seção 3.2), p. 13 (nota de rodapé 5), p. 40 (conclusão) e p. 41 a 43 (apêndice A); divulgação: Folha de S.Paulo, 8/9/2026.

“9 em cada 10 apostadores perdem dinheiro”

O que está no estudo

  • O estudo afirma que 90,8% dos apostadores sacaram menos do que depositaram nos seis primeiros meses e conclui que o dinheiro enviado às apostas é, para quase todos, "dinheiro perdido".

Por que não se sustenta

  • O estudo não vê o dinheiro que fica com o apostador. Quando a pessoa deposita numa bet, o dinheiro vai para uma conta em nome dela dentro da plataforma, onde pode ser usado para apostar ou sacado quando ela quiser, como um saldo no banco. Para o estudo, tudo o que não voltou para o banco é perda, inclusive o que o apostador ganhou e deixou na plataforma.
  • Os próprios autores admitem o exagero. Numa nota de rodapé, escrevem que a medida "exagera as perdas". O resumo e a imprensa usaram o número sem essa ressalva.
  • Os valores são pequenos. Metade dos apostadores depositou até R$ 79 no total dos seis meses. Poucos reais esquecidos na plataforma já transformam a pessoa em "perdedora".
  • O número mistura bets legais e ilegais. Três quartos do dinheiro observado vão para fora do mercado regulado, e o estudo não informa quantos apostadores de bets autorizadas sacaram menos do que depositaram.
  • O dado oficial mostra quanto volta ao apostador. Em 2025, segundo dados do Ministério da Fazenda, as empresas autorizadas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos e devolveram R$ 183,7 bilhões aos apostadores em prêmios e bônus sacáveis, cerca de 83% do total. É um dado agregado, que não indica quantos apostadores ganharam ou perderam. Ele mostra que a maior parte do dinheiro depositado no mercado regulado voltou aos apostadores. Esse dado não está no estudo.

Confira a fonte: Firpo e pesquisadores da Stone, Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil (set/2026), documento de trabalho não publicado, p. 2, 11 e 13 (tabela 2 e nota de rodapé 5); divulgação: Folha de S.Paulo, 8/9/2026; dados do Ministério da Fazenda para 2025 (Gazeta do Povo, ago/2026).

“Quem começa a apostar fica 20% mais inadimplente”

O que está no estudo

  • O resumo do estudo diz que começar a apostar aumenta a inadimplência em 19,7% e o atraso no cartão em 38,7%. Foram esses os números que chegaram à imprensa.

Por que não se sustenta

  • O número mistura bets legais, sites ilegais e outros pagamentos. O estudo não calcula a inadimplência só de quem apostou em bets autorizadas.
  • O estudo confunde quem já estava endividado com quem se endividou por apostar. Antes da primeira aposta, as pessoas que viriam a apostar já estavam em situação bem pior do que as que nunca apostaram: tinham pouco mais de um terço do limite de crédito e mais dívidas caras, e essa situação já vinha piorando. O estudo compara esses dois grupos e coloca boa parte da diferença na conta das apostas.
  • Em parte, é o contrário. O próprio estudo mostra que ficar inadimplente aumenta a chance de começar a apostar. Muita gente não se endividou porque apostou: começou a apostar porque já estava endividada.
  • O resultado é frágil. Os próprios autores reduzem os números para cerca de 14% e 35% depois de ajustes, e chamam o resultado da inadimplência de "o menos robusto" do estudo. A imprensa recebeu a versão mais alta.

Confira a fonte: Firpo e pesquisadores da Stone, Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil (set/2026), documento de trabalho não publicado, p. 1 (resumo), p. 18 (tabela 3), p. 24 (tabela 4), p. 36 (seção 5.3) e p. 50 (tabela C1); divulgação: Folha de S.Paulo, 8/9/2026.

“Os bancos cortam 16% do crédito de quem começa a apostar”

O que está no estudo

  • O estudo mostra que, no ano seguinte à primeira aposta, o limite de crédito dessas pessoas caiu cerca de 16%, e interpreta isso como uma reação dos bancos às apostas.

Por que não se sustenta

  • O número mistura bets legais, sites ilegais e outros pagamentos. O estudo não calcula o corte de limite só para quem apostou em bets autorizadas.
  • Os bancos já tinham motivos para cortar. O limite é definido pelos bancos a partir de sinais de risco, como pouco crédito disponível e uso de crédito caro. O grupo que passou a apostar já tinha esses sinais antes de fazer a primeira aposta.
  • O corte começou antes da aposta. O próprio estudo mostra que o limite dessas pessoas já vinha caindo nos quatro meses anteriores à primeira aposta registrada. Se o corte começou antes, não dá para dizer que foi a aposta que o provocou.
  • O número muda conforme a conta. Sem ajustes estatísticos, o estudo encontra aumento de 22% no limite depois da primeira aposta. Com ajustes, encontra queda de 16%. Um resultado que vira o oposto dependendo da forma de calcular não é uma conclusão firme.

Confira a fonte: Firpo e pesquisadores da Stone, Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil (set/2026), documento de trabalho não publicado, p. 18 (tabela 3) e p. 23 a 27 (seção 5.1); divulgação: Folha de S.Paulo, 8/9/2026.

“Os resultados valem para todos os apostadores do país”

O que está no estudo

  • O título fala em "evidência do Brasil". A amostra reúne clientes de uma única instituição, que correspondem a 1% a 3% dos apostadores do país.

Por que não se sustenta

  • A amostra não representa o apostador brasileiro. São clientes da Stone, empresa voltada a pagamentos de pequenos negócios: só 11% têm menos de 25 anos, contra 22% no país. O estudo não demonstra que os resultados possam ser generalizados.
  • A maior parte do que o estudo chama de aposta não passa pelo mercado regulado. Três quartos do dinheiro vão para sites ilegais, intermediários e outros destinatários.
  • Ninguém consegue conferir. Como os microdados não são públicos, pesquisadores independentes não conseguem reproduzir os cálculos.

Confira a fonte: Firpo e pesquisadores da Stone, Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil (set/2026), documento de trabalho não publicado, p. 11 (seção 3.1) e p. 39 (validade externa); divulgação: Folha de S.Paulo, 8/9/2026.

“Bets custam R$ 38,8 bilhões por ano ao Brasil”Dossiê do IEPS · dezembro de 2025

O que os dados mostram: A estimativa foi feita para a Inglaterra e convertida para reais, e 71% do valor não é dinheiro gasto.

O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) publicou o dossiê "A saúde dos brasileiros em jogo" com uma frente parlamentar e outras organizações. O transtorno do jogo é um problema real de saúde pública e exige atenção. O que esta checagem questiona não é a existência desses danos, mas se os dados e métodos utilizados pelo dossiê sustentam as conclusões apresentadas. O documento reúne dados de pesquisas, de órgãos públicos e uma estimativa de custo feita a partir de números da Inglaterra.

“As apostas geram R$ 38,8 bilhões em custos sociais por ano, sendo R$ 30,6 bilhões ligados à saúde”

O que está no estudo

  • O dossiê estima que os danos associados às apostas e jogos de azar geram um custo social de R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil, dos quais R$ 30,6 bilhões seriam "ligados à saúde".
  • Para chegar ao número, o dossiê usou estimativas de custo calculadas para a Inglaterra, converteu os valores para reais pela paridade de poder de compra e os aplicou ao número estimado de brasileiros em risco.

Por que não se sustenta

  • O número não foi medido no Brasil. O dossiê utilizou estimativas de um órgão do governo inglês, converteu os valores para reais pela paridade de poder de compra e os aplicou à população brasileira, sem estimar diretamente os custos dos serviços públicos nacionais.
  • A maior parte não é dinheiro gasto. 71% do valor, R$ 27,4 bilhões, é um valor estatístico atribuído a mortes e à perda de qualidade de vida. Perder anos de vida é um dano real, e dar um valor em dinheiro a isso é prática aceita em saúde pública. Mas esse valor não sai do orçamento do SUS nem de nenhum outro, e o dossiê não informa quanto atribuiu a cada ano de vida.
  • Apenas uma parcela da estimativa corresponde a custos de tratamento. Dos R$ 30,6 bilhões "ligados à saúde", cerca de R$ 3 bilhões correspondem a tratamento, e mesmo esse valor é o custo do sistema de saúde inglês convertido para reais. O próprio Ministério da Saúde afirmou não conseguir separar quanto o SUS gasta com atendimentos ligados a apostas.
  • Os gastos são estimados com parâmetros ingleses. Os cerca de R$ 11 bilhões restantes, que não são valor estatístico, incluem tratamento de depressão, encarceramento, seguro-desemprego e perda de moradia. São custos estimados a partir dos serviços e parâmetros da Inglaterra, que não correspondem necessariamente aos custos desses serviços no Brasil. Um preso, por exemplo, custa em média ao Estado inglês cerca de sete vezes o que custa ao brasileiro.
  • A própria base inglesa é incerta. O estudo inglês estimou o custo numa faixa ampla, de £ 1,05 bilhão a £ 1,77 bilhão por ano. O órgão britânico que fiscaliza estatísticas oficiais pediu mais clareza sobre a força das evidências. O dossiê usa o número sem essas ressalvas.
  • O número mistura jogos, mercados e períodos. O número de brasileiros em risco vem de uma pesquisa feita em 2022 e 2023, antes de existir qualquer bet autorizada, e que inclui loterias, bingo e jogo do bicho. O dossiê também não separa as bets autorizadas dos sites ilegais. Ainda assim, o custo resultante é comparado só com o que o mercado regulado arrecada.

Confira a fonte: dossiê IEPS, seção 3.2, Figura 4 e notas 88 e 89 (ieps.org.br); OHID, The economic and social cost of harms associated with gambling in England (2023); Office for Statistics Regulation (set/2024); Ministério da Saúde (Agência Brasil, jun/2026); CNJ (2021).

“As bets custam 6 vezes mais do que arrecadam”

O que está no estudo

  • O dossiê compara o custo de R$ 38,8 bilhões com R$ 6,8 bilhões de arrecadação federal com apostas e conclui que o setor "custa até 6 vezes mais" do que contribui.

Por que não se sustenta

  • A conta herda todos os problemas dos R$ 38,8 bilhões. A maior parte do custo é valor estatístico e custo de serviços ingleses, comparada com arrecadação, que é dinheiro de verdade.
  • Os períodos são diferentes. O custo é de um ano inteiro, e a arrecadação usada cobre oito meses de 2025.
  • Os jogos são diferentes. O custo inclui danos associados a loterias, bingo e jogo do bicho. A arrecadação inclui só o que as bets autorizadas pagavam.
  • O ano completo mostra outro valor. Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, em 2025 as empresas autorizadas destinaram por lei R$ 4,53 bilhões a esporte, turismo, segurança pública, educação, seguridade social e saúde, além dos demais tributos.
  • A conta vai só para quem segue as regras. O custo foi medido antes do regime federal de autorização e fiscalização, e o dossiê não separa as bets autorizadas dos sites ilegais. Ainda assim, ele é comparado só com o que as empresas autorizadas pagavam. Os sites ilegais não pagam nenhum desses valores.

Confira a fonte: dossiê IEPS, seção 3.2 e notas 61 e 91 (ieps.org.br); SPA/MF, relatório periódico de 2025 (gov.br/fazenda); Lei nº 13.756/2018, art. 30.

“No Reino Unido, 50% da arrecadação vai para a saúde; no Brasil, só 1%”

O que está no estudo

  • O dossiê compara os dois países no Quadro 1: 50% no Reino Unido e 1% no Brasil. O próprio dossiê diz, em nota, que os dados "têm caráter comparativo e visam ilustrar diferenças estruturais".

Por que não se sustenta

  • Os 50% britânicos são metade de uma taxa pequena. O Reino Unido criou em 2025 uma taxa específica, de 0,1% a 1,1% da receita bruta das empresas, e só essa taxa é dividida com 50% para o sistema público de saúde.
  • O 1% brasileiro é uma fatia de uma contribuição muito maior. As empresas autorizadas pagavam 12% da receita bruta, e a lei dividia esse valor entre várias áreas. 1% dos 12% vai diretamente ao Ministério da Saúde, e outros 10% vão à seguridade social, que inclui a saúde.
  • Na mesma base, a diferença é muito menor. Para cada 100 de receita bruta das empresas de apostas online, o Reino Unido destina 0,55 ao tratamento, e o Brasil, 0,12. A parcela britânica é maior, cerca de 4,6 vezes. A comparação do dossiê sugere uma diferença de 50 vezes. As finalidades também não são idênticas: no Reino Unido, os 0,55 vão para o tratamento de danos do jogo; no Brasil, o 1% do Ministério da Saúde se destina a ações de prevenção, controle e mitigação de danos do jogo na área da saúde.
  • A contribuição brasileira é bem maior que a taxa britânica. Os 12% cobrados no Brasil sobre a receita bruta equivaliam a cerca de 11 vezes a taxa britânica de 1,1% para apostas online.
  • A contribuição só era paga no mercado regulado. Os 12% e todos os valores destinados à saúde vinham das empresas autorizadas. Os sites ilegais, que o dossiê não separa das bets autorizadas, não pagam nada.

Confira a fonte: dossiê IEPS, Figura 1 e Quadro 1 (ieps.org.br); governo do Reino Unido, statutory levy on gambling operators (gov.uk); Gambling Commission; Lei nº 13.756/2018, art. 30.

“O Brasil não tem autoexclusão nem regras de publicidade para as bets”

O que está no estudo

  • O Quadro 1 do dossiê diz que, no Brasil, a autoexclusão é "inexistente", a publicidade é "dispersa, sem regulação ativa" e não há "nenhuma estrutura" de atendimento especializado.

Por que não se sustenta

  • As regras estavam em vigor quando o dossiê foi publicado. Desde a Portaria SPA/MF nº 1.231, de julho de 2024, cada empresa autorizada era obrigada a oferecer autoexclusão individual, limites de tempo, de perda e de depósito, pausas e alertas. O próprio dossiê cita essa portaria.
  • As empresas eram obrigadas a agir. A portaria exigia que as empresas acompanhassem o comportamento de cada apostador, sugerissem limites ou autoexclusão conforme o risco e suspendessem o acesso de quem estivesse em risco alto de dependência.
  • A publicidade tinha regras detalhadas. Eram proibidos anúncios para menores, promessas de ganho fácil e a apresentação da aposta como fonte de renda ou investimento. Todo anúncio precisava trazer o aviso "18+" e um alerta sobre risco de dependência.
  • Depois, veio a autoexclusão centralizada. Em 10 de dezembro de 2025, oito dias depois da publicação do dossiê, o governo colocou no ar a plataforma que permitia pedir, de uma só vez, o bloqueio em todos os sites autorizados. Até agosto de 2026, foram mais de 1,2 milhão de pedidos.
  • O atendimento existe e está no próprio dossiê. Na seção 2.2.2, o dossiê descreve a rede de atenção psicossocial do SUS, com 3.061 CAPS, que atende pessoas com problemas relacionados a jogos.
  • Essas proteções valiam só para as empresas autorizadas. Os sites ilegais não estão submetidos a essas exigências nem à fiscalização do governo. O dossiê não faz essa distinção.

Confira a fonte: dossiê IEPS, Quadro 1 e seção 2.2.2 (ieps.org.br); Portaria SPA/MF nº 1.231/2024, arts. 4º, 12 e 13; Ministério da Fazenda, Plataforma Centralizada de Autoexclusão (gov.br/fazenda).

“O setor gera apenas 1.144 empregos”

O que está no estudo

  • O dossiê afirma que o setor tem 1.144 empregos formais, R$ 291 de receita para cada R$ 1 pago em salários e 84% de informalidade.

Por que não se sustenta

  • Os empregos foram contados um dia antes do mercado regulado. O número vem do cadastro oficial de empregos formais com data de 31/12/2024. As primeiras empresas autorizadas começaram a operar no dia seguinte, e uma das exigências da regulação era ter sede e administração no Brasil.
  • A conta de receita por salário combina anos diferentes. O dossiê não informa qual receita usou. O número só aparece ao combinar a receita de 2025 com os empregos de 2024.
  • A informalidade é de outra atividade. Os 84% vêm de uma pesquisa do IBGE que reúne bingo, corrida de cavalos e toda a atividade de jogos do país, inclusive a ilegal.
  • O mercado regulado mostra outro número. Um levantamento feito com as empresas autorizadas estima cerca de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos em 2025, com cerca de 47% das vagas exigindo nível superior ou especialização técnica. O estudo foi encomendado por entidades do setor. Os dois números não são contagens equivalentes: os 1.144 são vínculos formais registrados, e os 15,5 mil são uma estimativa que inclui empregos indiretos.

Confira a fonte: dossiê IEPS, seção 3.1 e Figura 3 (ieps.org.br); RAIS 2024; LCA Consultoria e Cruz Consulting, Panorama do mercado de apostas de quota fixa (nov/2025).

“Dois em cada três apostadores estão em risco, e os brasileiros gastaram R$ 240 bilhões em apostas”

O que está no estudo

  • O dossiê afirma que 66,8% dos usuários de bets apresentam comportamento de risco ou problemático, que 0,8% da população "se enquadraria" no diagnóstico de transtorno do jogo e que os brasileiros movimentaram R$ 240 bilhões em apostas em 2024.

Por que não se sustenta

  • Os 66,8% somam faixas muito diferentes. O número soma pessoas classificadas em risco baixo, risco moderado e jogo problemático. Essas categorias representam níveis muito diferentes de gravidade e não podem ser tratadas como equivalentes a um diagnóstico clínico. O grupo do jogo problemático corresponde a 0,8% da população.
  • Questionário de triagem não é diagnóstico. A pesquisa usou um questionário de nove perguntas que indica quem merece avaliação. Diagnóstico é feito por profissional de saúde, com outros critérios, que a pesquisa não aplicou.
  • R$ 240 bilhões é dinheiro movimentado. É o total transferido para empresas de apostas segundo o Banco Central. Parte desse dinheiro volta ao apostador como prêmio e é apostada de novo. Em 2025, segundo dados do Ministério da Fazenda, as empresas autorizadas devolveram em prêmios e bônus sacáveis cerca de 83% do que receberam em depósitos.
  • Os dados são de antes do mercado regulado e incluem outros jogos. A pesquisa foi feita em 2022 e 2023 e pergunta sobre qualquer jogo de aposta, inclusive loterias, bingo e jogo do bicho. Os R$ 240 bilhões são de 2024. Nos dois casos, nenhuma bet tinha autorização federal, e as exigências de verificação de idade, limites de gasto e autoexclusão ainda não eram cobradas.

Confira a fonte: dossiê IEPS, seção 1 (ieps.org.br); LENAD III, Unifesp; dados do Ministério da Fazenda para 2025 (Gazeta do Povo, ago/2026).

“Famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025”Boletim do Comsefaz · julho de 2026

O que os dados mostram: O valor é a diferença de Pix de um setor inteiro, que reúne apostas, clubes e academias, e não a perda dos apostadores.

O Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz) e o Centro Internacional Celso Furtado publicaram o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, com um quadro sobre o efeito das apostas nas transferências por Pix. O texto principal do boletim é cauteloso e diz que as apostas são "um fator adicional que pode ter contribuído" para a pressão sobre o orçamento das famílias. A checagem abaixo trata de uma questão de método: se o método do boletim permite ler seus números como gasto novo ou perda das famílias.

“As bets acrescentaram R$ 24 bilhões por mês aos Pix, R$ 351 bilhões só em 2025”

O que está no estudo

  • O boletim mostra que os Pix de pessoas para empresas do setor de "artes, cultura, esporte e recreação" saltaram de cerca de R$ 5 bilhões para mais de R$ 25 bilhões por mês no início de 2025, quando começou o mercado regulado.
  • Para estimar o efeito das apostas, o boletim projetou como a série teria seguido a partir do próprio passado e atribuiu às apostas toda a diferença entre o que aconteceu e a projeção: R$ 24,1 bilhões por mês em média e R$ 350,97 bilhões em 2025.

Por que não se sustenta

  • A série mede um setor inteiro. O setor de "artes, cultura, esporte e recreação" reúne apostas, clubes, academias, espetáculos e parques. O boletim não separa as apostas das outras atividades.
  • A regulação pode ter mudado o registro dos pagamentos. Antes de 2025, empresas de apostas podiam funcionar a partir do exterior e receber por meio de intermediários registrados em outros setores. Com a regulação, passaram a ter de funcionar no Brasil, com contas próprias, e seus pagamentos passaram a aparecer no setor de apostas. O próprio Banco Central disse à CPI das Bets que a regulação facilitou identificar essas transações. O salto pode combinar expansão real da atividade e pagamentos que passaram a ser registrados nesse setor. O boletim não separa essas duas coisas.
  • A base de comparação não separa os pagamentos das apostas. O boletim usa a série de antes de 2025 como referência do que seria normal. Em 2024, segundo estimativa preliminar do Banco Central, as empresas registradas no código de jogos e apostas receberam cerca de R$ 0,3 bilhão por mês em Pix, enquanto 56 empresas de apostas classificadas em outros códigos de atividade receberam R$ 20,8 bilhões por mês. A série do boletim não permite identificar separadamente os pagamentos das empresas classificadas em outros códigos. Por isso, parte do que o boletim trata como novo pode ser pagamento que passou a ser registrado no setor.
  • A diferença em relação à projeção não diz de onde vem. Ela pode refletir as apostas, a mudança de registro, outras atividades do setor e erros normais de previsão. O boletim atribui tudo às apostas e não apresenta a margem de incerteza de uma projeção que vai até cerca de 19 meses além dos dados usados. O próprio boletim diz, em nota de rodapé, que a estimativa é "de ordem de grandeza" e não "uma mensuração causal precisa".
  • O número não separa o mercado regulado. A série não identifica as empresas autorizadas. Elas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos em 2025, segundo dados preliminares do Ministério da Fazenda. Os dois números são construídos de formas diferentes, e o boletim não indica qual parte dos seus R$ 351 bilhões corresponde ao mercado regulado.

Confira a fonte: Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, 3ª edição, update, p. 38 e 39 e nota de rodapé 16 (comsefaz.org.br); Banco Central, Nota Técnica nº 513/2024 (set/2024); depoimento do Banco Central à CPI das Bets (Movimento Econômico, 08/04/2025); IBGE, CNAE 2.0, seção R; dados do Ministério da Fazenda para 2025 (Gazeta do Povo, ago/2026).

“As famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025”

O que está no estudo

  • O boletim calculou a diferença entre os Pix que as pessoas mandaram para as empresas do setor e os Pix que receberam delas, descontada a projeção. Chegou a R$ 62,5 bilhões em 2025, cerca de 0,68% da renda das famílias, e afirma que o setor absorveu recursos "sem devolução proporcional".

Por que não se sustenta

  • Diferença de Pix não é perda. O boletim mede quanto dinheiro entrou e saiu das contas de um setor por Pix. A perda do apostador é outra coisa: o valor apostado menos os prêmios. As duas podem ser diferentes, porque o apostador pode deixar saldo na plataforma, usar prêmios em novas apostas sem sacar e depositar ou sacar por outros meios além do Pix.
  • O dado oficial do mercado regulado é outro. Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, a receita bruta das empresas autorizadas em 2025, que corresponde à perda líquida dos apostadores, foi de R$ 36,96 bilhões. As medidas não são equivalentes, e a comparação não mostra quanto o boletim erra. Mostra que ele não relaciona seus R$ 62,5 bilhões com o dado oficial.
  • O número também não separa os mercados. O dado oficial cobre só as empresas autorizadas. A série do boletim pode incluir pagamentos a outras atividades do setor e, eventualmente, a empresas não autorizadas registradas nele, sem que seja possível identificá-los.

Confira a fonte: Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, p. 39 e 40 (comsefaz.org.br); SPA/MF, relatório periódico de 2025 (gov.br/fazenda); Portaria SPA/MF nº 615/2024.

“A restrição ao Bolsa Família mostrou que as famílias pobres apostavam muito”

O que está no estudo

  • O boletim observa que os Pix para o setor desaceleraram depois de outubro de 2025, quando foi proibido apostar com o CPF de beneficiários do Bolsa Família e do BPC, e conclui que as famílias de menor renda tinham "participação relevante" no mercado de apostas.

Por que não se sustenta

  • O efeito não foi isolado. O boletim atribui a desaceleração à restrição sem testar outras explicações, como variações sazonais, o calendário esportivo ou ajustes no registro dos pagamentos. Também não informa quantas pessoas foram bloqueadas nem quanto apostavam. Acontecer na mesma época não prova que uma coisa causou a outra.
  • Menos volume não diz quanto se perdia. O volume de Pix inclui dinheiro que volta como prêmio e é apostado de novo. Uma queda no volume não mostra quanto essas famílias perdiam com apostas.
  • O bloqueio era um controle exigido do mercado regulado. A restrição dependia da consulta obrigatória dos CPFs em sistema oficial, exigida das empresas autorizadas e sujeita à fiscalização. Os sites ilegais não estão sujeitos a esse controle, e o boletim não investiga se parte desses apostadores passou a apostar neles.

Confira a fonte: Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, p. 37 e 39 (comsefaz.org.br); Portaria SPA/MF nº 2.217/2025; Portaria SPA/MF nº 1.231/2024.

“As bets aumentaram a pressão sobre o endividamento das famílias”

O que está no estudo

  • O boletim diz que as apostas são "um fator adicional que pode ter contribuído" para a pressão sobre o orçamento das famílias, "com potencial impacto sobre sua capacidade de honrar compromissos financeiros", e que o setor tem "baixo efeito multiplicador sobre a economia real".

Por que não se sustenta

  • O próprio boletim aponta os juros como fator determinante. Segundo o boletim, o endividamento das famílias chegou ao patamar atual em 2021, antes do mercado regulado, com a expansão das fintechs e do cartão de crédito. O aumento do comprometimento da renda é atribuído ao "elevado patamar da Selic", e o boletim afirma que "o fator determinante é o custo desse endividamento".
  • O boletim não mede a contribuição das apostas. O boletim não estima o peso das apostas no endividamento. A estimativa por Pix mede o fluxo de um setor, e não o endividamento das famílias.
  • O "baixo efeito multiplicador" não tem conta. O boletim não apresenta nenhuma estimativa para sustentar a afirmação. No mercado regulado, também era proibido apostar com cartão de crédito, a modalidade com os juros e a inadimplência mais altos.

Confira a fonte: Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, p. 35 a 37 e 63 (comsefaz.org.br); Portaria SPA/MF nº 1.231/2024.

Como checar qualquer número sobre bets

Os estudos checados erram em pontos parecidos. Estas sete perguntas ajudam a avaliar qualquer número sobre apostas que aparecer numa manchete.

  1. O número está no estudo ou apareceu só na entrevista?

    Por que importa: Um número dito numa entrevista ou num release não passou pelo mesmo cuidado de um estudo e, muitas vezes, não tem conta que o sustente.

    Nos estudos checados: Os R$ 143 bilhões que o comércio teria perdido saíram da fala do economista-chefe da CNC e não estão no relatório.

  2. O número foi medido no Brasil ou trazido de outro país?

    Por que importa: Custos de saúde, prisões e benefícios sociais dependem de como cada país organiza seus serviços públicos. Um número calculado em outro país, só convertido de moeda, não mostra quanto o problema custa aqui.

    Nos estudos checados: Os R$ 38,8 bilhões do IEPS são uma estimativa feita para a Inglaterra, convertida para reais. A maior parte é valor estatístico atribuído a mortes e perda de qualidade de vida, e não gasto do SUS.

  3. É dinheiro apostado ou dinheiro perdido?

    Por que importa: Quando alguém aposta, a maior parte do dinheiro volta como prêmio e pode ser apostada de novo. Somar tudo o que circula multiplica o tamanho do gasto. O que pesa no bolso é a diferença entre o que entrou e o que voltou.

    Nos estudos checados: A CNC usou uma série de mais de R$ 30 bilhões por mês, enquanto a perda real nas bets autorizadas foi de cerca de R$ 3 bilhões por mês em 2025. A Stone contou como perda até o dinheiro que continuava na conta do apostador na plataforma. O IEPS citou os R$ 240 bilhões movimentados em 2024 sem descontar os prêmios. O Comsefaz apresentou a diferença entre os Pix que entram e saem de um setor inteiro como saída de recursos das famílias para as apostas.

  4. Fala do mercado legal, do ilegal ou mistura os dois?

    Por que importa: Sites ilegais não estão submetidos às regras do mercado regulado nem à fiscalização do governo: não são obrigados a recusar cartão de crédito, limitar gastos, verificar idade ou oferecer autoexclusão. Misturar os dois mercados atribui às bets autorizadas problemas típicos do mercado ilegal.

    Nos estudos checados: A CNC não separou bets autorizadas de sites ilegais. Na Stone, três quartos do dinheiro observado vão para fora do mercado regulado. O IEPS não separa os dois mercados em nenhum momento. O Comsefaz usa uma série de um setor amplo, que não identifica as empresas autorizadas.

  5. Os dados são de antes ou depois das regras de 2025?

    Por que importa: As bets existem no Brasil desde 2018, mas só passaram a ter autorização federal, identificação do apostador e proteções obrigatórias em janeiro de 2025. Dados de antes disso descrevem um período em que nenhuma empresa tinha autorização e essas proteções ainda não eram cobradas.

    Nos estudos checados: Dos 39 meses que a CNC chama de "pós-Bets", 24 são de antes das regras. Os dados centrais do IEPS são de 2022 a 2024, antes de existir qualquer bet autorizada.

  6. O estudo comparou com quem não aposta, ou só olhou o antes e o depois?

    Por que importa: Olhar o antes e o depois mostra que algo mudou, não por quê. Para saber se as apostas causaram uma piora, é preciso comparar com pessoas parecidas que não apostam, e levar em conta juros, renda e crédito.

    Nos estudos checados: A CNC comparou o Brasil antes e depois de uma data e deixou os juros de fora. A Stone comparou pessoas que já estavam em situação pior com pessoas em situação melhor. O Comsefaz comparou a série com uma projeção feita a partir do próprio passado dela, sem grupo de comparação.

  7. O que mudou foi o comportamento ou a forma de registrar?

    Por que importa: Quando uma regra muda quem é obrigado a registrar o quê, as estatísticas podem saltar sem que o comportamento das pessoas tenha mudado na mesma proporção. Antes de tratar um salto como gasto novo, é preciso saber se a forma de medir continuou a mesma.

    Nos estudos checados: Com a regulação, as bets passaram a ter de funcionar no Brasil, com contas próprias, e seus pagamentos passaram a ser identificados no setor de apostas. O Comsefaz tratou o salto dos Pix nesse setor como efeito das apostas, sem verificar quanto vinha dessa mudança de registro.